Ainda sinto o cheiro de óleo de rícino e a euforia dos parisienses no Campo de Bagatelle. O 14-bis ergueu-se do chão, pesado, mas livre. Contudo, nas semanas que se seguiram a este outono de 1906, uma sombra tem obscurecido a luz da minha conquista. Chegam-me rumores fantásticos, ecos de um futuro distante que falam de máquinas calculadoras formidáveis, chamadas computadores, e de uma Índia que tenta, em vão, forjar a sua própria soberania tecnológica. Leio este estranho despacho com o coração apertado. Nele, a geopolítica e o capital global sufocam o engenho de uma nação, transformando-a em mera exportadora de mentes, em vez de senhora de suas próprias máquinas. Não compreendo a natureza dessas inovações digitais, mas reconheço a força brutal das fronteiras que recuso. Em Cabangu, sonhava com engrenagens que nos libertariam do solo; em Paris, construí um aparelho para unir os povos, sob um céu que não aceita cercas. O ar é um território comum, o oceano que banha todas as nações. O que me assombra neste relato do porvir não é a engenharia desconhecida, mas a repetição de um ciclo nefasto. Se o império do capital e a disputa entre as potências podem confiscar as máquinas de pensar da Índia, o que farão com a minha máquina de voar? O orgulho cordial que sinto ao ver o homem dominar o ar cede lugar a uma melancolia premonitória. Temo que os mesmos governos que hoje aplaudem o meu voo amanhã instalem canhões sob as asas de lona e bambu. Temo que a invenção, nascida para ser um abraço sobre o mundo, torne-se um instrumento de terror ou um monopólio de poucos. A ciência não deve ter pátria, mas os homens insistem em aprisioná-la. O engenho humano, seja na construção de maravilhas automáticas que desconheço, seja na mecânica do voo, deveria pertencer à humanidade. Que o futuro nos perdoe se, ao entregarmos as chaves dos céus e do intelecto artificial, permitimos que os mercadores e os generais trancassem as portas do progresso.
Tecnologia · 05 de mai. de 2026
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