Ainda sinto o vento frio de novembro no Campo de Bagatelle bater em meu rosto, semanas após o voo do 14-bis. Aqui em Paris, a capital do mundo, celebro com meus pares o triunfo do mais pesado que o ar. Contudo, minhas memórias frequentemente voam para o calor de Cabangu, onde aprendi a observar o infinito. O céu, para mim, sempre foi um território comum, a vastidão azul que repudia as cercas e as fronteiras que os homens insistem em traçar na terra. Chegou às minhas mãos, entretanto, um relato perturbador, um rumor que se diz originário do longínquo ano de 2026. O texto menciona uma instituição acadêmica na Suíça, a ETH Zurich, e fala de doze empresas nascidas de seus laboratórios, buscando o que chamam de capital de crescimento e rodadas de Série A. Desconheço a natureza exata desses termos financeiros, essas startups e esse venture capital. Financiei meus balões e aeroplanos com a herança dos cafezais de meu pai, movido apenas pela curiosidade e pelo desejo de elevar o espírito humano. O relato suíço sugere uma mercantilização da própria inventividade, uma era em que a ciência deixa de ser a paixão de sonhadores nas oficinas para se tornar um instrumento de teses de investimento. Admiro o rigor acadêmico, mas uma melancolia premonitória me invade o peito. Quando a invenção se submete a essa engrenagem de capital e escala, a quem ela servirá? Temo profundamente que as máquinas voadoras, concebidas para unir as nações, sejam apropriadas por generais. Se a ciência do futuro for financiada para garantir o domínio e a destruição, meu esforço terá sido em vão. O ar não deve ser rasgado por trincheiras ou patrulhado por canhões. Recuso a ideia de que o engenho humano, seja em minhas frágeis asas de cambraia ou nesses complexos laboratórios de tecnologia do amanhã, sirva à guerra. Que os pesquisadores de Zurique, e os financiadores que os apoiam, lembrem-se de que o objetivo supremo da ciência é a paz. O céu é o nosso único continente indivisível, e a inovação só tem sentido se for para nos fazer voar juntos, livres das correntes do solo e da cobiça.
Startups · 12 de mai. de 2026
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