Aqui em Paris, as folhas de outono ainda guardam o eco dos aplausos do Campo de Bagatelle. Há poucas semanas, o 14-bis provou que o homem pode, enfim, navegar o oceano de ar. Contudo, em meio às celebrações, chega-me às mãos um rumor insólito, um suposto eco de um futuro distante: fala-se de um tempo em que as Ilhas Baleares precisarão rogar a uma tal Comissão Europeia para que lhes permitam cooperar além de uma fronteira invisível de 150 quilômetros. Cento e cinquenta quilômetros. Leio e releio essa medida com um espanto melancólico. Quando menino, nas vastidões da fazenda Cabangu, eu olhava para o alto e não via réguas ou cercas. O céu sempre me pareceu o derradeiro território comum da humanidade, um domínio onde a geografia perde sua força tirânica. A invenção do aeroplano, este pássaro de lona e bambu que acabo de entregar ao mundo, nasceu justamente para obliterar as distâncias, não para que elas fossem recriadas em papel e burocracia. Causa-me perplexidade imaginar que, no futuro, nações ainda se apeguem a limites arbitrários para ditar quem pode ou não estender a mão ao vizinho pelo Mediterrâneo. O ar não reconhece ilhas ou continentes; ele abraça a todos com a mesma fluidez. Se o homem aprenderá a cruzar os céus com velocidade e segurança, por que insistiria em erguer muros invisíveis? É nesse ponto que meu orgulho cede espaço a um temor gélido. Se a humanidade do porvir ainda se curva a fronteiras mesquinhas, temo pelo uso que farão da minha máquina. O aeroplano, concebido para integrar povos e encurtar abraços, corre o terrível risco de ser convertido em instrumento de vigilância e morte, patrulhando essas mesmas linhas imaginárias. A aviação deveria ser o golpe final contra o isolamento. Recuso-me a aceitar que o céu, outrora sinônimo de liberdade, venha a ser loteado por burocratas ou rasgado por máquinas de guerra. O voo pertence a todos, sem fronteiras.
Inovação · 29 de jun. de 2026
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