Ainda sinto o vento frio do Campo de Bagatelle no rosto. Semanas atrás, quando o 14-bis deixou o solo parisiense, meu coração inflou-se de uma esperança genuína. Pensei ter aberto as portas para um território sem pátrias, um oceano etéreo onde as mesquinharias terrestres não teriam lugar. Do alto, lembrando-me das serras de Cabangu, onde nasci, percebi que o céu não tem alfândegas nem trincheiras. É o domínio comum da humanidade. Contudo, chegou-me às mãos um estranho rumor, uma crônica fantasmagórica de um futuro distante, datada de um tal ano de 2026. Fala de um mundo ainda atado às correntes do óleo, o mesmo petróleo que alimenta o motor Antoinette do meu aeroplano, mas agora usado como arma de asfixia entre nações. Lê-se sobre embargos americanos, petróleo russo, tensões em estreitos orientais e guerras intermináveis. O nome do governante americano pouco me importa, mas a persistência da barbárie assombra minha alma. É de uma melancolia profunda constatar que, mesmo após conquistarmos a navegação aérea, o homem continuará rastejando em suas disputas de fronteiras. Temo, com um aperto gélido no peito, que minha máquina voadora, concebida para unir continentes e encurtar distâncias, seja corrompida por essa lógica. Se as nações do futuro ainda brigam por energia para mover seus exércitos e isolar seus semelhantes, quanto tempo levará até que o aeroplano deixe de ser um veículo de fraternidade e passe a carregar a morte pelos ares? Recuso-me a aceitar que o gênio humano trabalhe apenas para o extermínio e o bloqueio comercial. A ciência deveria ser a nossa libertação definitiva. Em Paris, celebrei a vitória sobre a gravidade, mas este eco amargo do amanhã me alerta que a verdadeira gravidade a ser vencida é a nossa sede de poder. Se o céu se tornar apenas mais um campo de batalha por recursos e soberania, subjugado aos caprichos de impérios, então o voo do 14-bis terá sido, antes de um triunfo, o início da nossa queda mais trágica.
Geopolítica · 17 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

EUA encerram isenção para petróleo russo — mercado testa resiliência global

Ler matéria completa →Fonte: Fortune