Chegou-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro que mal ouso imaginar, datado de 2026. Fala de uma Espanha onde a lei permitiria a um vizinho perfurar a parede de outro para instalar algo chamado 'carregador de veículo elétrico'. Não compreendo a natureza de tais máquinas, mas entendo a essência da disputa: o desejo individual impondo-se sobre o espaço comum, a propriedade privada sobre a convivência. Há poucas semanas, em Paris, fiz voar o meu 14-bis. Levantei-me do chão não para conquistar um pedaço de terra, mas para me libertar dele. O céu, vejam bem, não tem muros. Não há 'propriedade horizontal' nas nuvens. O ar que nos sustenta é um bem comum, um oceano que banha todas as nações, indiferente às fronteiras que os homens desenham em seus mapas. Meu sonho, ao criar o mais-pesado-que-o-ar, foi justamente o de oferecer à humanidade um caminho para superar essas divisões mesquinhas. Contudo, este relato futuro me enche de uma melancolia premonitória. Se os homens de amanhã disputarão com tanto afinco o direito de furar uma parede de garagem, o que não farão com uma invenção que lhes permite sobrevoar qualquer muro, qualquer fortaleza, qualquer país? Um calafrio me percorre ao pensar que meu pássaro de lona e bambu, nascido para unir os povos, possa ser convertido em arma, em um instrumento para violar não a parede de um vizinho, mas a soberania de uma nação inteira. Da minha distante Cabangu ao cosmopolita Campo de Bagatelle, minha jornada sempre foi a de construir pontes. A tecnologia que permite a um homem furar uma parede é a mesma que, em outra escala, talvez permita transpor oceanos. Resta a esperança de que a humanidade escolha usar suas novas ferramentas não para criar novas disputas, mas para finalmente entender que, vistos de cima, somos todos vizinhos de um mesmo e frágil condomínio.
Tecnologia · 15 de out. de 2026
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