Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e ouço o murmúrio atônito da multidão no Campo de Bagatelle. Faz poucas semanas que o 14-bis ergueu-se do chão por seus próprios meios, rasgando o ar de Paris e provando que o homem pode, enfim, navegar o oceano infinito do céu. Da varanda de meu apartamento, observo as nuvens e lembro-me de Cabangu, no interior do Brasil, onde primeiro sonhei com máquinas voadoras. O céu que cobre Minas Gerais é o mesmo que cobre a França; lá em cima não há fronteiras, não há passaportes, apenas a liberdade absoluta que desejei legar à humanidade. Contudo, uma sombra de melancolia já turva meu orgulho. Receio que os governos transformem minha invenção, um instrumento de união, em uma máquina de guerra, lançando a morte sobre cidades indefesas. É com esse espírito apreensivo que leio este estranho rumor vindo de um tempo distante, falando de uma tal inteligência artificial e de disputas entre corporações de nomes insólitos, como Intel e Nvidia. Falam de processadores, de mentes mecânicas fabricadas em escala para dominar o que chamam de mercado de data centers. Não compreendo a natureza exata desses semicondutores, mas a essência humana permanece tragicamente familiar. Vejo a mesma ambição pelo domínio, a mesma corrida desenfreada por supremacia que hoje vejo nas potências europeias ao olharem para o meu aeroplano com cobiça militar. Se no futuro os senhores construirão cérebros artificiais mais simples e baratos para contornar barreiras comerciais, pergunto-me a que propósito maior servirão. Serão ferramentas para elevar o espírito humano ou novas armas de controle em um mundo cada vez mais retalhado por fronteiras invisíveis? Quando concebi o voo do mais pesado que o ar, sonhei com o firmamento como um território comum, um espaço irrestrito de concórdia. O céu recusa trincheiras. Rezo para que, quando essa inteligência artificial florescer plenamente, os homens do futuro tenham mais sabedoria para guiar seus inventos do que a minha geração parece ter para guiar os nossos. Que a força da inovação seja sempre as asas da fraternidade, e jamais o estopim da nossa própria ruína.
Venture Capital · 01 de jun. de 2026
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