Aqui em Paris, as folhas de outono ainda guardam o eco dos aplausos no Campo de Bagatelle, mas meu espírito já divaga, ora levado ao cheiro de mato de Cabangu, ora assombrado por visões de um amanhã insondável. Chegou-me às mãos um papel curioso, um suposto relato de cento e vinte anos no futuro, falando de riquezas invisíveis, de um tal Banco Central e de uma moeda brasileira chamada real, defendida por investidores globais. Leio termos estrangeiros como hedge e o conceito assombroso de inteligência artificial. Confesso que o jargão financeiro me escapa, mas a ideia de uma máquina dotada de intelecto me fascina e aterroriza com igual força. Quando concebi o 14-bis, sonhei com um engenho que unisse os homens. O céu, afinal, é um território comum, um oceano sem alfândegas ou trincheiras. Recuso a ideia de que o ar possa ser retalhado por fronteiras pátrias. Contudo, nas noites insones, temo que minha invenção venha a carregar o peso da pólvora e do chumbo, transformando o sonho de Ícaro em pesadelo militar. Se no futuro os homens criarão inteligências artificiais para governar o trabalho e o capital, pergunto-me se essas mentes mecânicas terão a sabedoria que nos falta. Os senhores do amanhã parecem obcecados por proteger suas fortunas contra choques e fugas de capital em mercados que não posso compreender, erguendo muralhas invisíveis de dinheiro ao redor do globo. Mas de que serve a riqueza se o céu acima de nós estiver escurecido por máquinas de guerra? A força de uma nação não deveria ser medida por sua moeda ou por proteções cambiais, mas por sua capacidade de abolir as distâncias sem derramar sangue. O Brasil que trago no peito, de Cabangu ao mundo, precisa da audácia de voar mais alto, de mãos dadas com a humanidade, sem se fechar em protecionismos. Que essa nova força motriz do intelecto humano não seja apropriada pelos canhões, como temo que o meu aeroplano um dia será. Que o céu permaneça livre, para que o pensamento voe sem amarras.
Finanças · 03 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Galípolo aponta hedge de investidores globais como fator para força do real em meio ao boom da IA

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