Ainda guardo nas mãos o cheiro do óleo de rícino e da lona úmida do Campo de Bagatelle. Faz poucas semanas que o 14-bis descolou de suas amarras terrestres, provando a Paris e ao mundo que o homem pode, enfim, navegar o oceano de ar. Ao olhar para o céu daqui de meu ateliê, sempre me lembro das noites estreladas de Cabangu, onde sonhei pela primeira vez com a vastidão azul como um território comum, desprovido de cercas, alfândegas ou passaportes. O ar deveria ser a via universal da civilização. Contudo, chegou-me às mãos um estranho rumor, um delírio assustador, como um despacho de um futuro distante. As palavras soam exóticas aos meus ouvidos de 1906: fala-se de mísseis de longo alcance, artefatos voadores criados por pequenas oficinas de inventores que chamam de startups em terras como a Ucrânia e Israel, encomendados pela Alemanha para substituir armas americanas. O propósito não é o transporte de passageiros ou a união dos povos, mas a chamada dissuasão. Uma ameaça de morte que cruza os ares. Sinto um calafrio na espinha. Será esse o destino sombrio da minha máquina? Temo que o engenho que criei para encurtar distâncias e aproximar corações venha a ser pervertido em um mero vetor de destruição. Vejo nesses relatos a descrição de torpedos aéreos, máquinas que voam sem o coração de um aeronauta a bordo, concebidas apenas para carregar a ruína a centenas de quilômetros de distância. Os governos parecem fadados a transformar o voo em artilharia, buscando alternativas baratas para chover fogo sobre nações vizinhas. Recuso-me a aceitar as fronteiras que os homens insistem em desenhar na terra, e dói-me profundamente a alma imaginar que tentarão demarcá-las também nas nuvens. O aeroplano nasceu de um esforço pacífico, para ser uma ponte sobre os continentes. Se este presságio for verdadeiro, a humanidade terá corrompido o milagre. Que a Providência nos perdoe se, em vez de anjos de lona e bambu, estivermos apenas chocando os ovos de onde nascerão as aves de rapina de amanhã.
Geopolítica · 19 de jun. de 2026
Ensaio sobre a notícia

