Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e a euforia da multidão no Campo de Bagatelle. Semanas após o voo do 14-bis, Paris continua a celebrar o homem que finalmente deu asas à humanidade. O céu, essa vastidão sem fronteiras que contemplei desde menino na fazenda de Cabangu, agora nos pertence. É um território comum, livre de cancelas e arames farpados. Contudo, uma melancolia premonitória aperta meu peito. Temo que os mesmos ares que hoje nos unem sejam, amanhã, rasgados por máquinas de guerra, lançando fogo sobre os telhados do mundo. É nesse estado de espírito que me chega, como um delírio ou um murmúrio de um século distante, um relato sobre o futuro. Fala-se de um ano muito além de nossa imaginação, onde uma casa italiana chamada Inkiostro Bianco recobre as paredes interiores das residências com fotografias e pinturas fundidas em papel. Mencionam artistas, como uma senhora Knorr e um senhor Bressana, transformando salões fechados em imensas telas de arte. Causa-me espanto e certo alento. Enquanto dedico minha vida a tirar o homem de suas caixas de pedra para que ele habite o infinito, o futuro parece empenhado em trazer a beleza do infinito para dentro dessas mesmas caixas. A fusão da fotografia, que meu amigo Nadar tanto elevou em seus balões, com a pintura clássica, sugere que o desejo humano pela transcendência estética permanece intacto. Se minha máquina voadora corre o risco de ser desvirtuada por generais que enxergam o céu apenas como uma trincheira vantajosa, conforta-me saber que a sensibilidade artística sobreviverá nos lares. Recuso as fronteiras que os homens desenham no chão e lamento profundamente que queiram erguê-las nas nuvens. Que o porvir, se for de fato como esse rumor sugere, prefira gastar seu engenho adornando as paredes de suas moradas com arte e luz, em vez de usar os ares que desbravei para reduzi-las a escombros. O verdadeiro luxo não é o domínio territorial sobre o outro, mas a contemplação pacífica do belo, seja flutuando livremente sobre o Sena, seja diante de uma parede que nos convida a sonhar.
Design · 25 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Inkiostro Bianco transforma interiores em telas de arte com nova coleção de papéis de parede

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