Mal se passaram algumas semanas desde que o 14-bis se ergueu sobre o Campo de Bagatelle, e o júbilo que sinto ainda se mistura a uma estranha melancolia. De minha Cabangu, trouxe o anseio por um mundo sem as cercas que dividem a terra. Paris me deu os meios para sobrevoá-las, para provar que o céu poderia ser a derradeira pátria comum da humanidade. Agora, chega-me às mãos um despacho vindo de um futuro que não compreendo, um rumor sobre prodígios e disputas. O texto fala de uma 'inteligência artificial', uma espécie de mente sem corpo, e de uma controvérsia por uma fatura vultosa. Mencionam um tal de 'Azure' e 'Claude', e uma startup enredada em 'créditos' e cobranças inesperadas numa entidade etérea a que chamam 'nuvem'. Confesso que os termos me soam como a mais fantástica ficção. Uma 'nuvem' que se pode possuir e onde se pode incorrer em dívidas? Uma 'IA' que opera e gera custos? No entanto, a essência do relato é terrivelmente familiar: um conflito por dinheiro, uma barreira erguida onde não se esperava. Isso me perturba profundamente. Se homens de um século vindouro, capazes de criar tais maravilhas, ainda se perdem em querelas sobre faturas e acesso, o que não farão com minha invenção, tão mais concreta? Dei ao homem asas para que ele se sentisse livre, para que enxergasse o mundo sem fronteiras, como eu o vejo do alto. Mas esse eco do porvir me assombra. Sugere que a engenhosidade humana para criar pedágios é infinita. Temo que o céu que sonhei como um oceano de liberdade seja apenas mais um território a ser loteado, controlado e, por fim, armado. Temo que as asas que concebi para unir se tornem instrumentos para dividir ainda mais.
Tecnologia · 09 de out. de 2026
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