Ainda escuto os ecos dos aplausos no Campo de Bagatelle. Semanas se passaram desde que o 14-bis deixou o solo de Paris, mas meu espírito já oscila entre o orgulho cordial de ter dado asas ao homem e uma melancolia premonitória. Olho para o céu e vejo um território comum, uma abóbada infinita que deveria, por sua própria natureza, recusar fronteiras e unir nações. Penso frequentemente em Cabangu, nas terras de Minas Gerais onde nasci, e no contraste entre a quietude da minha infância e o frenesi mecânico que agora me cerca. Foi nesse estado de espírito que chegou às minhas mãos um relato assombroso, um suposto eco do ano de 2026. O texto fala de uma tal "inteligência artificial", ou IA, e cita o senhor Andrew Feldman, líder de uma corporação chamada Cerebras. Confesso que a ideia de cérebros mecânicos abrigados em gigantescos "data centers" me soa como as ficções de Júlio Verne, mas a angústia descrita no relato é dolorosamente real e atemporal. O senhor Feldman adverte que essas vastas usinas de pensamento artificial consomem de forma voraz os recursos das comunidades locais, exigindo que os artífices dessa tecnologia assumam os custos de sua infraestrutura. Ele fala de uma licença social para operar. Como compreendo essa advertência. Quando liberei as patentes dos meus aeroplanos, fi-lo por acreditar que o engenho humano deve servir ao público, não extorqui-lo. Contudo, já sofro com a suspeita de que minhas máquinas voadoras não transportarão apenas correio e passageiros, mas também a morte, militarizadas para lançar explosivos sobre inocentes. O céu, que imaginei como via de paz, corre o risco de virar campo de batalha. O relato do futuro me mostra que os inventores do amanhã enfrentarão um dilema semelhante no solo. Se criarmos máquinas que pensam, mas permitirmos que elas exauram a água e a energia das cidades que as abrigam, teremos falhado moralmente. O progresso que não respeita a comunidade que o sustenta é uma forma de tirania. Seja nos céus sem fronteiras de Paris ou nas terras calmas de Cabangu, a tecnologia só encontra sua verdadeira glória quando se curva ao bem-estar da humanidade.
Tecnologia · 27 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Andrew Feldman critica indústria de IA por falha na integração comunitária de data centers

Ler matéria completa →Fonte: Business Insider