Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e a brisa fria do Campo de Bagatelle. Semanas atrás, quando o 14-bis finalmente deixou o solo parisiense, meu coração não celebrou uma glória particular, mas a inauguração de um território comum. O céu, essa imensidão azul sem alfândegas, trincheiras ou passaportes, sempre me pareceu o refúgio derradeiro da elevação humana. Lembro-me frequentemente de Cabangu, da quietude ancestral das montanhas de Minas Gerais, e de como aquele silêncio se opõe ao frenesi ruidoso dos bulevares. Toda a minha obra foi forjada na busca da leveza, da precisão, do refinamento artesanal. Hoje, contudo, chega-me às mãos um rumor absurdo, um despacho enigmático de um ano muito distante. Fala-se de uma tal matemática da viralização e de redes, onde um homem é capaz de produzir dezenas de mensagens diárias para capturar a atenção de multidões. O relato afirma, com frieza calculista, que o autor abandonou qualquer busca pela qualidade em favor de um volume assombroso, uma avalanche disparada no éter apenas para arrebanhar clientes. Confesso que tal ideia me causa um espanto profundo e melancólico. Gastei anos debruçado sobre pranchetas, costurando seda, testando a resistência do bambu e a força dos motores. Arrisquei a própria vida em balões e dirigíveis para que a humanidade pudesse, com serenidade, contemplar o mundo de cima. A excelência exige paciência e a verdadeira invenção requer o silêncio da reflexão. Se no futuro as invenções de comunicação servirão apenas para bombardear as mentes com um ruído incessante e mercantil, temo que o mesmo destino sombrio aguarde os meus amados aeroplanos. Já sofro, em minhas piores noites de insônia, com a premonição terrível de que o aparelho que concebi para unir as nações possa, em breve, ser desvirtuado. Vejo sombras de máquinas voadoras lançando explosivos sobre cidades indefesas, transformando a poesia do voo em um instrumento de carnificina e guerra. Este relato do amanhã soa como um eco exato dessa mesma tragédia: a perversão do engenho humano. Quando a quantidade esmaga a beleza, quando a pressa aniquila a arte, e quando o céu e o intelecto se tornam apenas campos de disputa, o homem perde a sua verdadeira capacidade de voar. O espaço é um templo sagrado demais para ser poluído por armas de fogo ou por um dilúvio de palavras vazias.
Marketing · 05 de jul. de 2026
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