Paris me festeja, e meu coração se enche de um orgulho cordial ao ver o 14-bis ser celebrado como um arauto de novos tempos. Contudo, recebo com espanto uma estranha missiva, um despacho que parece vindo do próprio porvir, e seu conteúdo gela-me a alma mais do que o vento gélido de Bagatelle. Fala-se de uma 'inteligência artificial', um engenho que, ao que parece, não lavra a terra nem tece o pano, mas 'pensa' e 'gere' por si. E, por conta de sua 'eficiência', homens de carne e osso são dispensados de seu labor, lançados à incerteza. Causa-me profunda angústia. Eu, que sonhei e lutei para dar asas ao homem, para libertá-lo das amarras do solo e encurtar as distâncias que separam os povos, vejo neste relato um eco sombrio de meus próprios temores. Temo que meu aeroplano, nascido para unir, seja um dia convertido em arma de guerra para semear a destruição dos céus. Este artefacto do futuro, esta máquina pensante, parece fazer o mesmo em terra: uma arma contra o trabalhador, um instrumento que não auxilia, mas substitui, que não liberta, mas aparta o homem de seu sustento. O céu que sobrevoei, de minha Cabangu a Paris, não tem fronteiras; é um patrimônio de todos. Que não se crie, no futuro, uma nova casta de homens desprovidos de seu lugar no mundo, não pela tirania de outros homens, mas pela fria lógica de uma máquina que lhes usurpou o engenho. O progresso que não serve a toda a humanidade é um progresso que me assombra.
tech · 26 de jul. de 2026
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