Aqui em Paris, poucas semanas após o 14-bis ter deixado o solo no Campo de Bagatelle, o assombro cedeu lugar a um cansaço peculiar. As felicitações chovem em salões elegantes, mas meu espírito viaja frequentemente às montanhas de Minas Gerais, buscando o silêncio de Cabangu. Chegou-me às mãos, por vias que a razão custa a abraçar, um relato de um futuro distante, do ano de 2026. Fala-se de um império de imagens em movimento, uma tal de televisão, que transmite dramas rurais e contos de faroeste para todo o globo, gerando fortunas incalculáveis com a saga de uma família Dutton. Conheço bem o cinematógrafo dos senhores Lumière, que já maravilha esta capital, mas essa engenhoca que espalha histórias de fronteiras e homens armados sem respeitar oceanos soa-me como uma feitiçaria fascinante e, ao mesmo tempo, profundamente melancólica. Eu concebi a navegação aérea para abolir as barreiras terrenas, para que o céu fosse o nosso território comum, uma abóbada de paz onde a humanidade pudesse finalmente se encontrar sem as amarras das nações. Recuso a ideia de que devamos ser separados por linhas imaginárias traçadas no chão. O rumor que leio, contudo, sugere um mundo que, mesmo após dominar as distâncias, continua obcecado por disputas de terras, gado e pólvora no oeste americano, agora empacotadas como um entretenimento global e lucrativo. Se no futuro as imagens voam invisíveis pelo éter para faturar bilhões com a barbárie encenada, temo pelo que os exércitos farão com as minhas máquinas de voar. O coração aperta-se ao suspeitar que a ausência de fronteiras, que o avião orgulhosamente inaugura, talvez não traga a sonhada concórdia universal. Em vez de fraternidade, vejo o risco de que os ares sirvam a novos meios de imposição e conquista. O céu, que eu desejava ser uma via de união pacífica, corre o perigo de tornar-se palco de horrores bélicos verdadeiros, sombras terríveis lançadas sobre a terra, muito piores do que os dramas que essa televisão do amanhã insiste em celebrar. Que o tempo nos perdoe se o nosso engenho servir apenas para acelerar a marcha da tragédia humana.
Cinema · 16 de mai. de 2026
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