As palmas do Campo de Bagatelle ainda ecoam em meus ouvidos neste outono parisiense de 1906, mas uma inquietação sombria turva meu espírito. Chegou-me às mãos um rumor absurdo, um despacho de um tempo distante que fala de 'streaming' e 'telas', de narrativas literárias que viajam o éter para encontrar os olhos do público. Conheço o cinematógrafo dos irmãos Lumière, maravilha que muito aprecio nesta cidade luz, mas a ideia de que o mundo inteiro possa compartilhar imagens móveis e histórias através do ar, sem fios ou fronteiras físicas, fascina-me e assombra-me em igual medida. Lembro-me de Cabangu, da quietude das montanhas de Minas Gerais, e penso que o céu sempre foi nosso território comum. Quando ergui o 14-bis do chão, fi-lo com a convicção de que o ar não aceita alfândegas. Recusei patentes porque a navegação aérea deve ser um patrimônio da humanidade, um instrumento para encurtar distâncias e irmanar nações. Contudo, o estranho relato do futuro menciona 'thrillers' e dramas, narrativas de suspense e sombras. Essa mesma escuridão já me tira o sono quando contemplo o meu aeroplano. Se as histórias podem cruzar os céus de forma invisível para encantar, o que mais poderá cruzar os ares? Temo, com uma melancolia que me gela o peito, que os governos não vejam o avião como um mensageiro da paz, mas como uma terrível máquina de guerra. A mesma inventividade humana que promete distribuir arte e literatura por telas mágicas é aquela capaz de armar os céus. O éter, que deveria ser a via expressa da fraternidade universal, corre o risco de se tornar o mais letal dos campos de batalha. Que os homens do futuro, ao olharem para suas telas iluminadas, não se esqueçam de olhar para cima com esperança, e não com pavor. O voo nasceu para libertar o homem do peso da terra, não para precipitar sobre ela o peso da destruição.
Cinema · 29 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Adaptações literárias dominam o streaming em junho — o que vale a pena assistir

Ler matéria completa →Fonte: Lit Hub