Chegou-me aos ouvidos um rumor singular, um despacho de um tempo vindouro cuja estranheza me perturba e fascina. Descreve uma espécie de livro de recordações perpétuo, um “perfil” que segue a existir e a ser visto mesmo após a morte do indivíduo. Uma identidade que sobrevive ao corpo, como um espectro aprisionado numa teia invisível a que chamam “digital”. Aqui em Paris, poucas semanas após o voo do 14-bis, meu nome corre de boca em boca. Mas sou eu, Alberto, de carne e osso, quem saúda os amigos no Aéro-Club de France. Sou eu quem ainda recorda o cheiro da relva de Cabangu em manhãs de neblina. Este “eu” que o despacho descreve parece outra coisa: uma sombra, um eco sem calor. Eu sonhei o céu como um território comum, um oceano de ar onde as fronteiras desenhadas nos mapas se dissolveriam. O avião, para mim, nasceu para unir os povos, para encurtar as distâncias que geram desconfiança e conflito. Contudo, já me assalta uma premonição melancólica: a de que minha invenção possa ser convertida em arma, em vetor de destruição. Este vislumbre do futuro me traz um desalento semelhante. Que imortalidade é esta, a de um “perfil fantasma”? Não é a memória viva, cultivada no coração dos que nos amaram, mas um autômato, uma coleção de rastros. A identidade, para mim, está no corpo que sente o vento, no olhar que busca o horizonte, na mão que constrói. Meu voo foi um gesto para unir os vivos, não para fabricar um cemitério de espectros elétricos. O céu é para os corpos, não para as sombras.
Filosofia · 22 de jul. de 2026

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A morte não apaga o seu feed

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