Aqui em Paris, as folhas de outono ainda celebram o voo do meu 14-bis no Campo de Bagatelle, mas meu espírito já se encontra assombrado por ventos mais frios. Recebo, por meios que a própria razão desconhece, um assombroso despacho de um futuro distante, datado de 120 anos adiante. Fala-se de um tal senhor Affleck, de uma indústria de ilusões chamada Hollywood e de uma inteligência artificial capaz de automatizar a criação de imagens, substituindo o labor humano na forja de fantasias. Leio essas palavras e meu pensamento voa para Cabangu, onde a simplicidade da terra me ensinou a sonhar com os céus. Quando concebi o mais pesado que o ar, minha ambição era encurtar distâncias. O céu, afinal, é um território comum, um oceano sem fronteiras que nos abraça a todos. Contudo, nas noites insones, uma melancolia premonitória me invade. Temo que a minha máquina voadora, nascida para ser um instrumento de concórdia, venha a ser desvirtuada pelas nações para lançar a morte sobre os homens, rasgando o firmamento com propósitos bélicos. Ao ler sobre essa nova invenção do amanhã, essa inteligência forjada por fios e engrenagens invisíveis, pergunto-me se o destino de toda inovação humana é escapar ao controle de seu criador. O senhor Affleck argumenta que a tecnologia apenas reduzirá custos e criará novos mercados para o entretenimento, preservando o talento humano. É a mesma esperança cordial que nutro pelo meu aeroplano. Mas a história nos ensina a desconfiar do otimismo mercantil. Se hoje celebramos a conquista do ar, o que farão amanhã com a conquista da própria mente? Recuso-me a aceitar as fronteiras físicas do mundo, assim como recuso a ideia de que o engenho humano deva servir à destruição ou à mera cobiça. Que essa máquina de pensar do futuro, assim como o meu 14-bis, encontre um caminho para elevar a humanidade, e não para precipitar sua queda.
Cinema · 31 de mai. de 2026
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