Ainda ouço os ecos da multidão no Campo de Bagatelle. Há poucas semanas, quando o 14-bis desprendeu-se do solo, acreditei ter inaugurado não apenas uma nova era para a locomoção humana, mas um tempo em que as fronteiras se dissolveriam na vastidão do ar. Contudo, chega-me às mãos um assombroso relato de um tempo vindouro, mais de um século à frente de nosso 1906. Fala-se de uma Alemanha ainda enredada na forja de armas, de cifras inconcebíveis e de formidáveis navios de guerra chamados fragatas, construídos por velhos conhecidos do aço como os Krupp. Causa-me profundo espanto e uma amarga tristeza ler este despacho. Em Paris, onde o mundo se encontra nos cafés e nos céus, sonho com a fraternidade universal. Quando sobrevoo as árvores, não vejo linhas demarcatórias nem nações; o céu é um território comum, o único oceano que todos os homens partilham igualmente. No entanto, este rumor do futuro revela que a humanidade continuará a gastar seu engenho e moedas incompreensíveis para erguer fortalezas flutuantes e planejar a destruição mútua. Sinto um calafrio premonitório. Se as nações do futuro ainda disputam a supremacia dos mares com tanto ardor e ferro, quanto tempo levará até que voltem seus olhos bélicos para o meu domínio? Temo que o aeroplano, nascido de um esforço pacífico e do puro deleite da invenção, seja um dia desvirtuado. Temo que as asas que projetei para aproximar os continentes venham a carregar a morte, transformando o firmamento em um novo campo de batalha. Lembro-me da quietude de Cabangu, no meu amado Brasil, onde o céu estrelado inspira apenas reverência e paz. Como é doloroso constatar que a engenharia, capaz de dar asas ao homem, permaneça atada aos instintos mais primitivos de conflito e comércio armado. Recuso-me a aceitar que o destino da tecnologia seja a perpetuação das divisas e o derramamento de sangue. O ar não tem trincheiras. Que os homens do futuro olhem para cima não com o terror das máquinas de guerra, mas com a mesma esperança que guiou o meu pesado pássaro de lona e bambu a deixar a terra.
Defesa · 25 de jun. de 2026
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