Daqui de Paris, poucas semanas após o voo do 14-bis no Campo de Bagatelle, observo o céu de outono com uma mistura de triunfo e apreensão. O ar, essa imensidão que não reconhece passaportes, pertence agora à humanidade. Sempre defendi que a invenção é um patrimônio universal; não por acaso, deixo meus projetos livres, sem patentes, para que qualquer construtor possa replicá-los. No entanto, chega-me às mãos um estranho rumor, um recorte de um século adiante. O texto fala de uma nova sorte de autômato, uma "inteligência artificial", construída por meio de códigos invisíveis. Lemos nesse delírio premonitório que nações do Oriente e da América digladiam-se pela supremacia dessa força. Mencionam um modelo chinês e regulações americanas, como se a engenhosidade humana pudesse ser contida por linhas traçadas em mapas. Quando menino, nas varandas de Cabangu, eu olhava os pássaros e sonhava com a união dos povos. Acreditava que a navegação aérea encurtaria as distâncias, irmanando continentes. Contudo, confesso que o sono me foge ultimamente. Temo que minhas máquinas de lona e bambu venham a ser desvirtuadas, servindo à destruição mútua. Esse relato do futuro apenas confirma meu pior pressentimento: a ciência avança em velocidade vertiginosa, mas o espírito dos governantes permanece acorrentado aos nacionalismos e à cobiça. Seja a mecânica dos ares ou a arquitetura dessa inteligência impalpável, o triste padrão se repete. Os inventores sonham com o infinito; os Estados e os financistas planejam o monopólio. As fraturas políticas de que fala o despacho — o embate entre ideologias, a desconfiança popular nas grandes metrópoles — revelam que não basta dominar as forças da natureza ou da matemática. Falhamos terrivelmente em comunicar o propósito da tecnologia para a sociedade. O céu é um território comum, assim como o intelecto humano. Recuso a ideia de que a descoberta científica deva servir à divisão dos homens. Se o amanhã transformar as ferramentas da mente em trincheiras, então nós, os desbravadores do desconhecido, teremos voado em vão.
Inovação · 28 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A Ofensiva do Código Aberto Chinês e o Vácuo Político da Tecnologia

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