Recebi um despacho de um futuro que mal consigo conceber, datado de 2026. Descreve algo chamado 'redes sociais' — vastos salões de conversas digitais, imagino — e um dilema judicial na França. Uma corte teria impedido o Estado de verificar a idade dos participantes, em nome da liberdade de expressão e da privacidade. A questão que me coloco, e que me parece mais fundamental do que a própria tecnologia, é por que tal assunto recai sob a rubrica de 'Inteligência Artificial'. Seriam essas 'redes', ou os sistemas de verificação, dotados de alguma capacidade de aprendizado, de inferência, que os aproxima do pensamento? O meu Jogo da Imitação propõe que uma máquina se passe por um humano. Neste futuro, parece que o jogo se inverteu: os humanos precisam provar quem são para as máquinas. A ironia é notável. O que me inquieta, contudo, é a natureza dessa prova. A criação de mecanismos universais para verificar a identidade de todos me parece uma porta para um tipo de escrutínio que conheço bem demais. É um alívio cauteloso saber que uma corte de justiça, mesmo daqui a setenta e seis anos, reconhece o perigo de se conceder a um sistema — ou a quem o comanda — o poder irrestrito de perguntar 'Quem é você?' e exigir uma resposta satisfatória sob pena de exclusão. A questão não é mais apenas 'Podem as máquinas pensar?'. Ela parece ter evoluído para: 'Como seremos julgados pelas máquinas que construímos e que regras lhes imporemos para que não nos julguem mal?'.
Inteligência Artificial · 15 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Corte constitucional da França bloqueia lei de restrição de idade em redes sociais

Ler matéria completa →Fonte: Financial Times Technology