Paris ainda celebra. O ar de Bagatelle parece reter a memória do voo, daquele instante em que o mais-pesado-que-o-ar se fez livre, provando que a vontade humana pode, de fato, nos dar asas. É uma sensação de triunfo que me acompanha nestes dias, um orgulho cordial por ter aberto um novo caminho para a humanidade. Contudo, chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um tempo que não é o nosso. Fala de um jogo, o beisebol, e de uma liga profissional para senhoras, a renascer após um hiato de setenta e dois anos. Meu espanto inicial cede lugar a uma admiração profunda. O documento menciona termos que mal compreendo — 'marca', 'branding' —, mas a essência é clara: a criação de uma identidade, de um propósito. Nomear as equipes em homenagem a mulheres pioneiras... que bela e justa ideia! É o reconhecimento de que o engenho, a audácia e a coragem não têm gênero. Essas futuras atletas, como eu, ousam desafiar o que se diz ser o seu lugar. O campo de jogo, para elas, será o que o céu é para mim: um espaço a ser conquistado pela perícia e pela determinação, um território onde as fronteiras do possível são redesenhadas. E é aqui que uma sombra melancólica me visita. Enquanto essas mulheres do porvir parecem construir algo para a celebração e a memória, temo pelo destino da minha própria criação. Entreguei à humanidade as chaves dos céus, um domínio sem cercas, vasto como o sonho que me trouxe de Cabangu a Paris. Mas já ouço sussurros que não falam de união, e sim de uso militar. Querem transformar o avião em arma, o céu em campo de batalha. Que o futuro se pareça mais com esse nobre jogo do que com minhas apreensões. Que os céus permaneçam como deveriam ser: um campo aberto a todos, um convite à comunhão, e não o palco de uma disputa onde a humanidade inteira perde.
Esportes · 10 de ago. de 2026
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