Ainda sinto o vento frio do Campo de Bagatelle no rosto. Semanas se passaram desde que o 14-bis se ergueu da terra por seus próprios meios, e Paris ainda celebra o feito. Contudo, enquanto as taças tilintam nos salões, meu espírito viaja frequentemente para a quietude de Cabangu. Lá, sob o céu vasto e sem divisões de Minas Gerais, sonhei com um oceano aéreo que uniria os povos. O céu é um território comum; recuso-me a aceitar as fronteiras que os homens insistem em traçar no chão. Sinto, porém, uma melancolia premonitória. Temo que o meu aeroplano, concebido para o congraçamento da humanidade, venha a portar armas, transformando as nuvens em trincheiras. Toda invenção grandiosa carrega em si a semente de sua própria corrupção. Esta manhã, chegou-me às mãos um estranho relato, um rumor assombroso de um futuro distante. Fala de imensos centros de dados e de uma certa inteligência artificial. Confesso meu espanto. Como mecânico, entendo de polias, seda, bambu e motores a explosão. O texto sugere que, no futuro, construirão usinas de pensamento mecânico, vorazes consumidoras de energia e água, quase como os colossais dínamos de nossa era. Dizem que essas máquinas poderão otimizar a agricultura e a indústria, compensando o que devoram. Será possível que o engenho humano crie algo capaz de raciocinar e gerir o mundo? Duvido de promessas puramente benéficas. Assim como temo que minha máquina voadora seja desvirtuada pela marcha militar, pergunto-me se essa tal IA não será também capturada pela ganância ou pela guerra. O progresso é um motor implacável. Que essas novas engrenagens, se de fato vierem a existir, sirvam para cultivar a terra e não para erguer novas fronteiras invisíveis. De minha parte, continuo a olhar para o alto, desejando apenas que o horizonte permaneça livre para todos.
Tecnologia · 16 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Data centers podem ser motores de eficiência — e não apenas vilões do consumo

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