Aqui em Paris, as folhas de outono ainda cobrem o Campo de Bagatelle, onde semanas atrás o meu 14-bis provou que o homem pode, enfim, navegar o oceano de ar. Recebo, contudo, um rumor insólito de um futuro distante, um eco de 2026 que me fala de uma Paris irreconhecível. Dizem-me que a casa Louis Vuitton, cujos baús tão bem conheço e que abrigam os meus pertences em minhas travessias, promoverá um espetáculo colossal com ondas gigantescas de água. O relato fala de uma crise climática e de uma natureza em agonia, transformada em mero artifício de luxo. Leio isso com um aperto no peito. Quando me elevei do chão, o fiz acreditando que o céu seria o nosso território comum, uma abóbada sem fronteiras onde a humanidade encontraria a sua paz. Lembro-me da minha infância em Cabangu, das nuvens que passavam sobre a serra mineira, livres de qualquer amarra. A minha máquina mais pesada que o ar deveria unir os povos, encurtar as distâncias. No entanto, uma melancolia premonitória já me assalta as noites. Se no futuro os homens esgotarão as águas da Terra a ponto de debaterem o seu uso em desfiles de moda, o que farão com o meu aeroplano? Temo que o mesmo engenho criado para aproximar nações seja desvirtuado, transformando-se em um vetor de destruição e de morte, lançando o terror dos ares sobre cidades indefesas. A vaidade parisiense sempre teve o seu encanto, e confesso a minha própria predileção pelo rigor estético. Mas o deslumbramento não pode cegar a consciência. A atmosfera que conquistei não pertence a nenhuma nação, assim como a água não deveria ser um luxo cenográfico enquanto o mundo padece. Recuso as fronteiras que separam os homens e as frivolidades que ignoram a exaustão da natureza. O amanhã que este despacho revela é sombrio. Que a nossa engenhosidade não seja lembrada pela arrogância de dominar os elementos, mas pela sabedoria de preservá-los, antes que o céu que hoje celebro se torne o último refúgio de uma humanidade que destruiu o próprio berço.
Moda · 03 de jul. de 2026
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