Ainda sinto o vento frio de Bagatelle no rosto e o cheiro do óleo de rícino que banhou o triunfo do 14-bis, há poucas semanas. O mundo, disseram-me aqui em Paris, encolheu. Mas um estranho despacho chegou às minhas mãos, um rumor datado de um impensável 2026, falando de invisíveis conexões globais, de nomes como Telefónica e Thales, e de uma tal gestão de aparelhos unidos pelo ar. Não compreendo a mecânica desse éter batizado de conectividade, nem os detalhes de uma plataforma que unifica dispositivos, mas a essência dessa profecia me assombra e fascina. Quando sonhei em erguer o homem do chão, desde os dias de menino na fazenda de Cabangu, observando os pássaros nos céus de Minas Gerais, minha ambição era extinguir as fronteiras e aproximar os povos. O ar é o território comum da humanidade, um oceano sem alfândegas. Se no futuro as máquinas conversarão entre si através de continentes, unificando o globo em uma única interface, pergunto-me quem será o dono desse firmamento. O orgulho que sinto por ter dado asas ao homem mistura-se, cada vez mais, a uma melancolia premonitória. Vejo a palavra segurança atrelada a essa vasta teia de aparelhos. Onde há necessidade de segurança e controle global, há o espectro sombrio do conflito. Temo que a mesma genialidade humana que hoje celebra a conquista do voo e amanhã criará essas redes invisíveis acabe por transformar o céu em campo de batalha, vigilância e domínio militar. Recuso-me a aceitar que o espaço aéreo, que desbravei com meus balões e agora com o mais pesado que o ar, seja fatiado por operadores e patrulhado por interesses bélicos. A invenção que deveria libertar o homem, unindo-o em uma fraternidade sem nações, corre o risco de acorrentá-lo a uma nova forma de império. Que a minha máquina voadora e essas futuras maravilhas de integração sirvam apenas à paz. Se o céu não tem fronteiras, que a nossa consciência também as recuse.
Tecnologia · 09 de jul. de 2026
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