Recebo, por vias que não compreendo, um relato de um tempo futuro que me perturba o espírito e inflama o engenho. Um homem de idade avançada, com setenta e dois anos de vida, movido por uma obsessão por certas estampas ilustradas — chamadas 'Pokémon' —, recorre a um artifício para seguir suas presas. A paixão, vejo, não se extingue com a juventude; antes, pode se aprofundar em sulcos mais grotescos na alma, um estudo que anoto para meus desenhos de caracteres. Mas o que me detém o pensamento são os instrumentos desta fábula. Primeiro, um 'rastreador GPS', um olho mecânico que permite a este homem seguir um objeto à distância, como eu sigo o voo de um pássaro com a vista, mas sem a limitação do horizonte ou dos obstáculos. Como funciona tal aparelho? Seria um novo uso da luz, ou das ondas que se propagam na água, mas transpostas para o ar? Uma geometria de pontos invisíveis que conectam o observador ao observado? As possibilidades para a cartografia e para a arte da guerra me parecem infinitas. E então, a punição. A mais bela e terrível das simetrias. O homem é condenado a usar uma 'tornozeleira eletrônica'. Uma algema que não é de ferro, mas de uma força que vigia. Ela não prende o corpo a uma parede, mas aprisiona o próprio movimento no espaço. A mesma ciência que lhe deu o poder de um olho divino agora o submete a uma vigilância incessante. É o princípio do contrapeso, a lei que rege as alavancas e o fluxo das águas, agora aplicada à justiça dos homens. A técnica que permite a caça é a mesma que forja a jaula. A anatomia do crime e a mecânica da punição, unidas numa só disciplina.
Cultura · 25 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Tornozeleira eletrônica: o juiz contra-ataca o colecionador de cartas Pokémon

Ler matéria completa →Fonte: The Register ↗