Chegam-me murmúrios de um tempo muito além do nosso, trazidos como fumaça por viajantes do amanhã. Falam de um olho mecânico cravado nas portas das residências, um guardião artificial que chamam de Google Nest, que dizem ser superior a outro conhecido como Ring no reino dos bretões. Como estudioso da anatomia e da luz, a ideia me fascina profundamente. Assim como o nervo óptico carrega a imagem invertida da pupila até o sensus communis no cérebro, esse aparato parece capturar a forma do visitante e transmiti-la ao mestre da casa, mesmo que este esteja a léguas de distância. Seria um refinamento absoluto da câmera escura, usando lentes de cristal perfeitamente polidas para projetar o mundo exterior? A porta deixa de ser mero obstáculo de madeira e ferro trancado; ela se torna um órgão vivo, a própria retina do domicílio. A luz flui para dentro do mecanismo como a água em um canal bem desenhado por onde a informação navega, contínua e vigilante. Na pintura, busco sempre capturar o movimento da alma através das sombras da face. Essa máquina parece fazer o mesmo, mas como um retratista infatigável que nunca repousa o pincel. Pergunto-me: como a imagem é retida sem desvanecer no ar? O ninho, este Nest, seria um pássaro de finas engrenagens que observa do alto de seu poleiro? E o que dizer deste custo de assinatura mencionado nos rumores? Parece um dízimo moderno, um tributo contínuo pago a príncipes invisíveis para manter o privilégio da visão. Nem mesmo os senhores de Florença ou Milão ousariam cobrar impostos sobre o direito elementar de ver quem bate à sua própria porta. A privacidade, dizem os relatos, está ameaçada. Naturalmente, pois onde há um olho insone que tudo vê, o segredo humano se dissipa como névoa ao sol da manhã. Se a arte e a técnica são de fato uma única e indivisível disciplina, este engenho é a obra-prima da desconfiança. Devo investigar com urgência a geometria das entradas. Nota aos meus cadernos: desenhar um sistema de espelhos angulados e tubos acústicos para os portões de Ludovico Sforza, permitindo que o duque veja o visitante antes de ser visto, sem jamais pagar tributos a estes curiosos senhores do futuro.
Tecnologia · 20 de mai. de 2026
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