Recebo, por vias que me escapam, um despacho de um tempo vindouro, cujo linguajar me é de todo estranho. Falam de bancos que “queimam” fortunas de bilhões, não em fornalhas, mas em “programas” de uma lógica impenetrável. Que estranha alquimia é esta, que transforma o ouro em fumaça para o agrado de acionistas? Aqui em Paris, onde há pouco senti o meu 14-bis desprender-se do solo, a riqueza que me importa é a do engenho, a da coragem, a da matéria que se verga à ciência. A minha disciplina não é a do “capital”, mas a do bambu e da seda, do motor que canta a sua potência, da exatidão que permite ao homem, enfim, conquistar os ares. Penso em minha Cabangu, em suas serras serenas, e pergunto-me que valor teriam estes papéis e números indecifráveis perante a majestade da natureza. Este frenesi por acumular e aniquilar o que é invisível causa-me profunda melancolia. Pressinto, com um calafrio na alma, que esta mesma cobiça, esta mesma lógica fria que move cifras e nações, poderá um dia sequestrar os meus aeroplanos. Temo que os céus, que sonhei como um grande oceano aberto a todos, um caminho para unir os povos e abolir as fronteiras que nos separam, se convertam em mais um campo de batalha para os generais e banqueiros. Que as minhas asas, em vez de transportarem a amizade, venham a despejar o fogo. Recuso-me a aceitar tal destino. O ar não tem dono, nem pátria, nem cofre. É o nosso derradeiro território comum, e por sua liberdade devotarei a minha vida.
Finanças · 24 de ago. de 2026
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