Aqui em Paris, poucas semanas após as pesadas rodas do 14-bis finalmente deixarem a grama de Bagatelle, chega-me um estranho rumor de um futuro distante. Falam-me de um desenho industrial que, em pleno século vindouro, ignora as necessidades das mulheres. Causa-me profundo espanto. Minhas máquinas, desde os primeiros dirigíveis com os quais contornava a Torre Eiffel até este pássaro de lona e bambu, exigem uma leveza e uma precisão que não conhecem gênero. A engenharia deve ser um convite ao infinito, não um muro de pedra. Quando fito o horizonte nublado da França, minha mente costuma voar para o silêncio de Cabangu, a fazenda onde nasci. Lá, sob a vastidão do céu brasileiro, aprendi que o firmamento é um território comum. Recuso a ideia de fronteiras, sejam elas desenhadas em mapas por burocratas, sejam elas erguidas invisivelmente pelos objetos que nós mesmos criamos. O ar não exige passaportes, e a técnica não deveria exigir a força bruta ou a medida exclusiva de um homem para ser dominada. Contudo, este relato me traz um calafrio que percorre a espinha. Se os homens do futuro projetam suas cidades e seus inventos com a mesma miopia e arrogância com que olham para as nações vizinhas, temo muito pelo destino do meu aeroplano. Criei o 14-bis para unir os povos, para encurtar as distâncias entre os corações e as mentes. Mas, se a mesma lógica que exclui as mulheres do desenho do cotidiano decidir armar os céus, meu pássaro pacífico inevitavelmente se tornará uma máquina de guerra. O uso militar de meu invento já me assombra em minhas noites mais insones. A verdadeira inovação, aquela que busco diariamente com o auxílio indispensável de talentosos mecânicos e hábeis costureiras nos ateliês parisienses, requer todas as mãos disponíveis. O futuro que este despacho me relata parece ter esquecido que o voo humano só se tornou realidade porque fomos capazes de desafiar o peso esmagador do passado. Se a humanidade continuar a construir o amanhã servindo apenas a uma de suas metades, continuaremos todos rastejando no chão, prisioneiros de nossa própria gravidade.
Design · 08 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Design industrial ignora necessidades das mulheres — e o custo é alto

Ler matéria completa →Fonte: Fast Company Design