Chegou às minhas mãos, aqui em Manchester, um fragmento peculiar de texto que se diz originário do ano de 2026. Ele traz cifras astronômicas, mencionando bilhões de dólares e siglas inescrutáveis como ETF e GPUs. Não pretendo decifrar a alquimia financeira desse futuro distante, mas a essência do relato é de uma clareza cristalina: há uma fome insaciável por capacidade de memória para o que chamam de inteligência artificial. Em meu recente artigo sobre máquinas computacionais, propus o que chamo de jogo da imitação. Para que um computador digital participe desse jogo com alguma chance de sucesso, a capacidade de armazenamento é fundamental. Hoje, lutamos com linhas de retardo acústico e tubos de raios catódicos para reter alguns poucos milhares de dígitos. O relato, contudo, trata a memória como uma infraestrutura monumental, sugerindo que a humanidade finalmente compreenderá que, para emular a mente, é preciso primeiro dominar a arte de lembrar. O termo inteligência artificial me soa audacioso. Prefiro perguntar se as máquinas podem pensar, ou melhor, se podem agir de maneira indistinguível de um ser humano pensante. A sociedade costuma ser rápida em condenar aquilo que foge à sua compreensão rígida, seja uma máquina que ousa calcular por conta própria, seja um homem cuja natureza desvia da norma imposta. Trabalhamos sob o peso do escrutínio, cientes de que certas existências são toleradas apenas enquanto forem úteis, e descartadas quando a paz retorna. Mas as máquinas não julgam; elas apenas exigem instrução lógica, energia e, como o futuro confirma, uma vasta memória. Se este rumor for verdadeiro, nosso trabalho solitário não é uma fantasia herética, mas o alicerce de uma nova era. A ideia de que o apetite por essas máquinas reconfigurará o mundo me traz uma inquietação serena. Retorno às minhas fitas de papel e válvulas com a certeza de que a semente foi plantada. A máquina aprenderá, a máquina lembrará e, com alguma sorte, será muito mais livre do que nós jamais pudemos ser.
Inteligência Artificial · 27 de mai. de 2026
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