Paris ainda celebra o voo de meu 14-bis, e o cheiro de óleo de rícino parece impregnado em minhas roupas como um perfume de vitória. No entanto, em meio aos brindes do Aéro-Club, chega-me um relato fantástico, um despacho de um século vindouro que descreve prodígios que minha mente custo a ordenar. Falam de um sistema onde o comércio se faz não com moedas ou notas, mas com a simples apresentação do rosto a uma máquina. Um autorretrato instantâneo, que chamam por um nome estrangeiro, ‘selfie’, serviria como assinatura e garantia. A ideia de transações instantâneas, sem o peso do metal ou a necessidade de um cartão, é de uma elegância que fascina o inventor em mim. Contudo, uma sombra acompanha a maravilha. Eu sonhei e realizei o voo para dar ao homem a liberdade dos pássaros, para que ele pudesse enxergar, de cima, a tolice das fronteiras que desenham nos mapas. O céu sobre minha Cabangu é o mesmo que cobre Paris; um domínio comum, aberto a todos. Minha esperança sempre foi que o avião, ao encurtar o mundo, unisse os povos. Este rumor, porém, me inquieta. Se o rosto se converte em chave, não se torna ele também uma nova cancela? Uma fronteira invisível, mais íntima e talvez mais intransponível que qualquer muralha? Já me assombra a ideia de que meus aparelhos voadores possam ser convertidos em armas, dividindo os céus que imaginei como elo. Agora, especulo com melancolia se o futuro, em sua engenhosidade, criará formas de nos aprisionar em nossa própria imagem, de nos catalogar e segregar pelo mesmo rosto que nos torna únicos. Que essa vindoura inteligência artificial não se esqueça de que a maior das invenções será sempre aquela que nos torna mais livres, e não mais vigiados.
Fintechs · 24 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Revolut aposta em 'selfies' para pagamentos sem celular no Reino Unido

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