Escrevo estas linhas ainda sob o influxo do Campo de Bagatelle. O ar de Paris parece mais leve desde que o 14-bis, minha frágil criatura de bambu e seda, provou que o homem pode, por seus próprios meios, conquistar os céus. A alegria do feito, o aplauso da multidão, tudo ainda reverbera em meu espírito. Contudo, em meio às alvíssaras, uma sombra me visita. Sonho com o avião como um instrumento de união, uma ferramenta para apagar as fronteiras que os homens desenham nos mapas. Imagino os céus como um território comum, vasto e livre como as paisagens da minha infância em Cabangu. Um despacho enigmático, vindo de um futuro que me escapa, caiu-me hoje em mãos, e sua leitura turvou meus pensamentos. Ele fala de um 'mini-índice', de 'pontos' que sobem e descem, de um 'leme' que estaria nos Estados Unidos, guiando o destino financeiro do meu Brasil. Que estranha forma de navegação é esta, regida não pelos ventos, mas por 'dados de inflação' e 'risco fiscal'? A linguagem é hermética, uma abstração que me assusta. Eu lutei para domar uma máquina no mundo físico, para sentir o ar sob as asas. Este porvir parece obcecado por números que flutuam numa realidade invisível. Temo que estas novas barreiras — 'juros', 'cotações', 'resistências' — sejam tão ou mais perversas que as linhas aduaneiras. Minha maior melancolia sempre foi a de que o aeroplano se tornasse uma arma, que chovesse fogo dos céus. Este papel me apresenta outro tipo de guerra, uma de nervos e cifras, que também parece prender os homens ao chão, ansiosos e divididos. Rogo para que minha invenção sirva para elevar o espírito humano, e não para acorrentá-lo a novos e impalpáveis grilhões.
Finanças · 26 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Mini-índice testa 178 mil pontos: o leme está nos EUA

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