Sussurram-me de um futuro distante, em Cipango, sobre uma maravilha da engenharia: repositórios de saber construídos não em terra firme, mas sobre as águas. Dizem que o solo lhes é escasso, um problema que bem conheço das nossas cidades apinhadas. A solução, pois, é domar o mar. Ideia que me agrada, pois a água é a biga da natureza — vetturale della natura. Quantas vezes não desenhei barcaças e sistemas para o Arno? Mas estes engenhos de que falam são distintos. Chamam-nos 'centros de dados', e os abrigam em 'fazendas de servidores'. Que estranha agricultura é esta? Não semeiam trigo, mas talvez o próprio conhecimento. E quem são estes 'servidores'? Autômatos que labutam, como os soldados mecânicos que imaginei? Ou algo mais sutil, uma máquina que imita a memória, tal como o olho imita a camera obscura? O corpo humano é o melhor dos mecanismos; seus nervos transportam sensações e comandos. Seria a 'conectividade' de que falam uma teia de nervos artificiais ligando a barcaça à cidade? E a energia! Dizem-na 'renovável'. Acaso dominam o movimento perpétuo das marés para mover suas máquinas, um quebra-cabeça que há muito me ocupa? A arte e a técnica aqui são uma só coisa. A beleza de tal engenho flutuante deve rivalizar com a de um afresco bem executado, pois em ambos a forma segue a necessidade, e a harmonia dos elementos é suprema. Resta-me a dúvida: que 'dados' guardam com tanto zelo? A anatomia de todas as coisas? A alma pode ser descrita em números e linhas? Preciso anotar: investigar a construção de um escriturário flutuante; estudar a corrosão do sal; compreender a natureza desta memória mecânica.
Tecnologia · 15 de out. de 2026
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