Chega-me às mãos, trazido por mercadores de ilusões ou visionários febris, um papiro que relata o ano da graça de 2026. Lemos sobre a Nigéria, terras distantes ao sul do grande deserto, recentemente margeadas pelas caravelas de Portugal, agora com assento em um conselho global chamado Agência Internacional de Energia. O relato fala em governar o suprimento de petróleo e gás. O que seria essa energia senão a força motriz, o ímpeto cego que move a água nos rios e o sangue nas artérias? A terra, como um grande corpo vivo, possui seus humores ocultos. O petróleo deve ser o sangue negro e espesso que repousa nas cavidades profundas do mundo, assim como a bile negra habita o baço humano. Se os homens desse futuro aprenderam a extrair tal fluido para mover suas engenhocas, talvez máquinas de voo como as que esboço em meus cadernos ou moinhos que dispensam a força do vento, então a arte da mecânica e a anatomia do planeta tornaram-se definitivamente uma só disciplina. Anotação para estudos futuros: investigar a viscosidade dos óleos minerais da terra em comparação com a água do rio Arno; se a água esculpe a montanha com paciência, o que faz esse gás aprisionado quando subitamente liberado? O despacho menciona governança e segurança de suprimentos. É fascinante e aterrador notar que a política dos homens não difere, seja em Florença sob o olhar dos Medici ou nesse império global vindouro. Aqueles que controlam o fluxo das águas e as comportas dos canais da Lombardia detêm o poder sobre a vida, a guerra e a agricultura. No futuro, controlar as veias de energia da terra é, portanto, governar o mundo inteiro. A Nigéria, antes na margem extrema dos mapas de Ptolomeu, converte-se no centro anatômico dessa nova ordem, equilibrando as forças das economias. Pergunto-me, contudo: ao drenar de forma contínua os humores internos da terra para alimentar sua fome insaciável de metal e fogo, esses homens não temem o colapso das artérias subterrâneas? A mecânica dos fluidos exige equilíbrio perfeito. Toda força que se retira de um vaso fechado deve ser compensada, sob pena de ruína estrutural. Amanhã, devo desenhar um sistema de válvulas de bronze que simule a extração de fluidos densos em um corpo sob pressão. A verdade da arte e da engenharia reside na proporção mútua, e a terra cobrará seu preço se a geometria de seus humores for violada.
Geopolítica · 02 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Nigéria reforça peso global ao integrar Agência Internacional de Energia

Ler matéria completa →Fonte: Forbes España