Paris ainda me celebra, mas no silêncio de meu apartamento, o eco dos aplausos se mistura a uma estranha melancolia. Há poucas semanas, o Campo de Bagatelle viu o 14-bis erguer-se do chão por seus próprios meios. Provei que o homem pode voar. Contudo, recebi um despacho curioso, um rumor vindo de um tempo que não é o nosso. O texto, de uma clareza desconcertante, fala de uma Europa unida não por reis ou impérios, mas por um grande banco central, com as nações partilhando uma mesma moeda. Descreve disputas por seu comando, como se o poder geopolítico emanasse não mais dos canhões, mas de decisões sobre o dinheiro.
Essa visão de futuro me espanta. Um espanhol liderando as finanças de alemães, franceses e italianos? Parece uma utopia, considerando as tensões que sinto fervilhar em cada esquina de nosso continente. Se os homens podem sonhar com tal união em terra, por que insistem em traçar fronteiras no céu? O ar, este oceano que agora se abre a nós, deveria ser o território comum por excelência, um elo entre os povos, não uma nova arena para suas velhas disputas. Lembro-me da imensidão do céu sobre Cabangu, em minha Minas Gerais. Ali não havia pátrias, apenas a liberdade.
Meu receio é que usem meu invento, este filho que mal aprendeu a caminhar, para o fim oposto. Que o avião se torne uma arma para vigiar as fronteiras que este futuro parece querer apagar, ou pior, para projetar o poder desses bancos e nações sobre os mais fracos. O voo é poesia, é a libertação do peso da gravidade e das amarras do solo. Espero, com toda a força de meu coração, que ele não se torne um instrumento da prosa mesquinha da geopolítica e da guerra. Que os homens aprendam a compartilhar o céu, como talvez um dia aprendam a compartilhar o pão e a moeda.
Geopolítica · 25 de out. de 2026
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