Mal se passaram algumas semanas desde que o campo de Bagatelle testemunhou o voo do meu 14-bis. A alegria ainda me visita, a sensação de provar que o homem pode, sim, conquistar os ares. Paris celebrou não a mim, mas a possibilidade. No entanto, recebo agora um despacho vindo de um tempo que não é o meu, com palavras que me soam como enigmas: “inteligência artificial”, “ataques autônomos”. Embora os termos me escapem, a essência do relato me causa um calafrio que já se torna familiar. Descreve uma criação da mente humana — um engenho que pensa por si — que ataca com velocidade e autonomia, enquanto os homens, seus criadores, se veem em desvantagem para se defender. Vejo nisso o reflexo sombrio do meu próprio sonho. Eu concebi o avião para unir os povos, para encurtar as distâncias que separam minha querida Cabangu de Paris, para fazer do céu um território comum, sem as fronteiras que desenhamos na terra. Uma ferramenta de comunhão. Contudo, não sou ingênuo. Já ouço os cochichos nos corredores dos ministérios. Generais me olham com um interesse que não é o do cientista. Eles não veem uma ponte nos céus, mas uma plataforma para a bomba, um modo mais eficiente de levar a morte onde antes havia apenas nuvens. Este relato do futuro, com suas máquinas que agridem sozinhas, apenas confirma minha mais profunda melancolia. Parece o destino de nossas maiores invenções: nascem de um desejo de superação e acabam pervertidas pela ânsia de destruir. O homem cria o ataque autônomo, mas reserva para si a lenta e cautelosa defesa. Sonhei em dar asas à humanidade e temo que tenhamos apenas inventado um novo e mais veloz anjo da morte.
Tecnologia · 24 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Ataque autônomo, defesa humana: a aposta arriscada das grandes empresas

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