Os aplausos em Bagatelle ainda ecoam em minha mente, um som de triunfo que, espero, seja para toda a humanidade. No entanto, em meio a estes dias de celebração, chegou-me às mãos um escrito perturbador, um suposto despacho de um futuro distante, do ano de 1926. O texto descreve uma nação vizinha ao meu Brasil, a Guiana, antes pobre, que se torna rica graças ao petróleo, valorizado por conflitos em terras longínquas. Que triste paradoxo é este: a fortuna de uns alicerçada na desgraça de outros, a prosperidade que brota da terra enquanto os homens se dividem por ela. Quando me elevei do solo com o 14-bis, há poucas semanas, o que vi não foram fronteiras, mas um mundo contínuo sob um céu comum. De minha Cabangu, com seus horizontes largos, a esta Paris, centro da civilização, a abóbada celeste sempre me pareceu um convite à união, não um mapa de possessões. Este rumor do porvir, porém, fala em “disputas territoriais”. É a velha ambição humana, o apego ao chão, que receio possa contaminar os ares. Um temor sombrio se avoluma em meu peito: o de que meu invento, nascido para aproximar os povos e encurtar as distâncias, seja um dia capturado para servir a essa mesma lógica de conflito. Imagino, com melancolia, o avião transformado em arma, o céu, nosso último território livre, convertido em campo de batalha para ganâncias terrestres. Eu quis dar asas ao homem para que ele se sentisse mais livre e fraterno. Espero, com todas as forças, que ele não as use para construir gaiolas mais altas. Que este despacho seja apenas ficção, e que o céu permaneça, para sempre, de todos.
Geopolítica · 23 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Guiana: Tensões no Oriente Médio impulsionam riqueza petrolífera e paradoxos

Ler matéria completa →Fonte: Xataka ↗