Aqui em Paris, as folhas de outono ainda celebram o voo do meu 14-bis no Campo de Bagatelle, mas minha mente já vaga por horizontes mais distantes. Chegam-me às mãos, como um eco de um tempo que não viverei, rumores estranhos de um futuro longínquo, falando de uma reinvenção de artesãos em Milão, de oficinas que chamam de startups e de casas de moda aliando-se a potentes máquinas de corrida. Eu, que sempre vi a elegância como irmã legítima da invenção — bastando lembrar do relógio de pulso que meu caro amigo Louis Cartier concebeu para que eu pudesse medir o tempo sem soltar os comandos do meu balão —, compreendo perfeitamente essa fusão. A tecnologia, seja em tecidos sob medida ou nos motores de combustão que agora movem veículos velozes nessas tais corridas de Fórmula, é o verdadeiro motor do nosso engenho. No entanto, leio sobre o esforço para modernizar uma herança puramente italiana, sobre executivos que cruzam fronteiras comerciais entre marcas como Gucci e Chloé, e não posso deixar de sorrir com certa melancolia. As fronteiras são uma ilusão grosseira que os homens insistem em desenhar no chão. Quando me elevo aos céus, contemplo apenas a vastidão contínua da Terra. De Paris às terras da minha saudosa infância na fazenda Cabangu, não há linhas divisórias nas nuvens. O céu é um território comum, o último oceano pacífico da humanidade. É esse mesmo firmamento que me enche de um orgulho cordial pelas conquistas do espírito humano, mas que também desperta uma ansiedade premonitória capaz de me tirar o sono. Se no futuro a tecnologia será usada para aprimorar o luxo e a velocidade no solo, temo profundamente pelo que farão com os meus aeroplanos. A máquina que concebi para unir continentes e desafiar a gravidade, livre das pesadas amarras da terra, carrega em si o germe de uma utilidade terrível. O que impede que os mesmos motores que hoje encantam a Europa tragam, amanhã, o fogo e a destruição militar dos céus? Enquanto o mundo do amanhã celebra a beleza refinada de suas roupas e a rapidez furiosa de seus carros, eu rogo para que nunca vistam minha invenção com as cores tristes da guerra. O ar não pertence a nação alguma; ele é a respiração irrestrita de todos nós.
Moda · 30 de mai. de 2026
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