Chega-me às mãos um despacho de um futuro distante, redigido em termos que me soam enigmáticos. Fala-se de 'redes de mídia de varejo', de uma 'batalha por diferenciação'. Não domino este vocabulário, mas a sua música me é estranhamente familiar. Sinto a essência de uma disputa por um novo tipo de território, um espaço imaterial que, mal descoberto, já se torna palco de competição e partilha. Há poucas semanas, o meu 14-bis elevou-se do chão de Paris, e com ele, a esperança de que os céus fossem um domínio livre, um convite à união. O ar, que sonhei como uma via para irmanar os povos, não deveria conhecer fronteiras nem proprietários. O mesmo céu azul que cobre a Cidade Luz é aquele que se estendia sobre a minha infância em Cabangu, um patrimônio que pertence a todos e a ninguém. Contudo, já me assombram os cochichos sobre o uso militar de minha invenção. O aeroplano, que imaginei como um instrumento de paz e aproximação, pode se tornar uma arma para demarcar poder e semear a destruição. Este rumor de 2026, com sua linguagem de conquista e mercado, parece confirmar uma melancólica vocação humana. Criamos novos mundos — seja no ar ou neste éter 'digital' que o despacho descreve — apenas para imediatamente os fatiarmos, os vendermos, os transformarmos em trincheiras. Temo que minhas asas, concebidas para a liberdade, acabem por inspirar novas formas de cativeiro. Que triste ironia seria se o futuro, em vez de abolir fronteiras, apenas se especializasse em criar outras, ainda mais sutis e inescapáveis.
business · 08 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Redes de mídia de varejo intensificam disputa por diferenciação e verbas

Ler matéria completa →Fonte: Modern Retail