Paris ainda celebra. O Campo de Bagatelle testemunhou há poucas semanas o voo do meu 14-bis, e sinto que, enfim, demos ao homem as asas que a natureza lhe negara. Meu coração, que transborda de um orgulho pátrio e universal, acredita ter oferecido ao mundo uma ferramenta de união, um meio de encurtar as distâncias e, quiçá, as desavenças entre as nações. O ar, afinal, não reconhece as fronteiras que os homens desenham com tanto esmero no solo.
Contudo, chegou-me às mãos um escrito desconcertante, um rumor vindo de um futuro tão longínquo que a mente hesita em crer. Fala de um tempo para além de um século, em terras cujos nomes soam bíblicos — Israel, Gaza — e de um conflito perene, de um 'ataque' e de um homem que teme pelo futuro de seu país. Entristece-me a alma imaginar que, mesmo após tantas eras, a humanidade ainda se apegue a disputas por porções de terra, erguendo muros onde eu sonhei construir pontes.
O que mais me assombra, porém, é uma premonição sombria. Se tais contendas persistirem, para que servirá o meu aeroplano? Será ele o mensageiro da paz que imaginei, levando correspondências e aproximando culturas, de minha Cabangu a esta Paris que me acolhe? Ou será transformado em uma arma, um abutre metálico a serviço da destruição? A ideia de que o engenho nascido para libertar o homem do chão possa ser usado para derramar fogo dos céus enche de melancolia o meu triunfo. Ofereci ao homem o domínio dos ares, mas temo que ele o use com a mesma insensatez com que governa a terra. O céu deveria ser o nosso novo domínio comum, a nossa ágora universal, não mais uma trincheira.
Geopolítica · 07 de out. de 2026
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