Chega às minhas mãos um pergaminho de origem incerta, datado de séculos que ainda não vivi. Fala de um mestre chamado Edelman e de engenharia cardiovascular. Leio e releio. Como a água que escava a terra e alarga os rios, o sangue molda os canais do corpo. Sempre afirmei que a mecânica é o paraíso das ciências matemáticas, pois é onde elas dão seus frutos. Este relato confirma o que meus desenhos em Ospedale Maggiore buscam provar: o coração é, antes de tudo, uma máquina de fluidos. Diz o texto que este homem uniu física e biologia para criar algo chamado stent, uma estrutura para sustentar as artérias. Maravilhoso. Se as paredes de um canal desmoronam sob a força da correnteza, o engenheiro constrói um escoramento de madeira ou pedra. Por que a natureza do corpo seria diferente da natureza da terra? A arte de curar e a arte de construir são a mesma disciplina. O sangue bate nas paredes da aorta e cria vórtices, exatamente como o rio Arno nos pilares de uma ponte. Anotações para investigar amanhã: Primeiro, qual material poderia ser inserido em uma veia sem que o corpo o rejeite como faria com uma lasca de madeira? Ouro, talvez, por sua pureza? Segundo, como introduzir tal andaime se os vasos são tão delgados? Seria necessário um tubo finíssimo, como o caule de uma planta, guiado pela corrente sanguínea. Cem milhões de vidas tocadas, diz o relato. Este número desafia a razão. Nem todos os habitantes da Europa e do Novo Mundo somados alcançam tal multidão. Será uma alegoria? Ou a máquina humana multiplicou-se de tal forma que as cidades do futuro são colmeias infinitas? Se este homem desenha estruturas para os rios do coração, ele é tanto pintor quanto engenheiro. Onde não há conhecimento da mecânica, a medicina é feitiçaria cega. Onde há precisão, a vida imita o voo da ave, sustentada pelo ar e pela forma. Guardo este papel estranho junto aos meus estudos da válvula aórtica. O futuro, ao que parece, é apenas a hidráulica aplicada à carne.
Ciência · 14 de mai. de 2026
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