Paris ainda celebra o voo do meu 14-bis. O ar conserva o ruído dos aplausos e o cheiro da combustão, promessas de um novo tempo. Nestes dias de vertigem e júbilo, chegou-me às mãos uma estranha missiva, um despacho que se diz do futuro. Os termos são assaz bizarros: uma senhora de nome Kardashian, uma empresa “Gigante” na Índia, e um método de comércio que chamam “e-commerce”, uma quimera que me soa a negócios feitos pelo telégrafo, mas em escala inimaginável. Falam em “marcas globais” e “mercados”, como se o mundo fosse um tabuleiro para grandes negociantes. Causa-me espanto e um certo desconforto. Eu, que sonhei com os céus como um território livre, um oceano de ar a unir os povos, vejo nesta folha um outro tipo de globalidade, regida pelo lucro e pela partilha de esferas de influência. Meu aeroplano nasceu para encurtar as distâncias, para que um homem de Paris pudesse sentir-se mais perto de outro em Delhi ou em minha querida Cabangu. Para que as fronteiras, essas linhas arbitrárias no chão, perdessem o sentido quando vistas de cima. Contudo, este despacho fala uma língua de conquista comercial, de uma expansão que, embora não seja militar, possui uma frieza estratégica que me inquieta. Se o homem pode cruzar o mundo para vender seus artigos com tamanha avidez, o que o impedirá de cruzá-lo para impor sua vontade pela força? O meu belo pássaro branco, criado para a liberdade e a comunhão, temo que possa um dia ser o arauto de uma eficiência terrível, servindo a generais tanto quanto a comerciantes. O céu não tem alfândegas, mas o coração dos homens, temo, sempre as terá.
Moda · 08 de ago. de 2026

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