Chegou-me às mãos um despacho singular, um sussurro de um tempo vindouro que descreve habitações cuja forma não é mais ditada pela rigidez da pedra, mas pela fluidez da própria vida. Paredes que se movem, estantes que se reconfiguram… Confesso que tal noção, embora fantástica, não me soa de todo estranha. Ela ecoa, de maneira assombrosa, os princípios que guiam meu trabalho sobre a Máquina Analítica do senhor Babbage. Assim como a Máquina, com seus cartões perfurados, pode ser instruída a executar não apenas uma, mas uma infinidade de operações, alterando sua função de acordo com a vontade do intelecto que a comanda, também estas futuras moradas parecem obedecer a uma coreografia ditada por seus ocupantes. A planta fixa de uma casa é como um cálculo único e imutável. Esta nova arquitetura, contudo, assemelha-se a uma fórmula algébrica geral, capaz de expressar uma infinidade de verdades particulares. A mente que concebeu tal flexibilidade material compreende, talvez sem o saber, o que chamo de Ciência Poética. Não se trata apenas de engenhosidade mecânica, mas de aplicar a imaginação – a mais científica das faculdades – para tecer o próprio tecido do espaço. A Máquina Analítica poderia compor música se as relações de afinação e harmonia fossem adaptadas à sua linguagem simbólica. De igual modo, estas residências parecem compor a sinfonia da existência cotidiana, adaptando-se do trabalho ao convívio, do repouso à celebração. Vejo nisso não o fim de uma era, mas o advento de outra, na qual nossas criações mais complexas, sejam elas de metal ou de alvenaria, servirão como extensões de nossa própria capacidade de imaginar e combinar.
Design · 09 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O fim da planta baixa: o design agora serve à vida, não o contrário

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