Chegou-me por via incerta um relato de Parigi, de um tempo que ainda não é o nosso. Fala de uma tal Hélène Fauquet, artífice que une a imagem à matéria de um modo que me causa assombro e curiosidade. Dizem que ela se utiliza de 'fotografia', uma pintura feita não pelo pincel, mas pela própria luz. Seria esta a perfeição da minha câmara escura, um engenho que finalmente aprisiona o instante, que fixa a alma de um momento sobre uma superfície sem a mediação da mão? Se assim for, a primazia do pintor está em xeque.
O mais intrigante, porém, é que esta imagem de luz é fundida a conchas e molduras. Ora, tenho dedicado a vida a demonstrar que o ornamento não é um capricho, mas a manifestação visível das leis que governam o mundo. A espiral de uma concha contém a mesma matemática que o vórtice da água ou o cacho de um cabelo. A moldura não é prisão, mas o esqueleto que dá corpo à pintura, como os ossos sustentam a carne. Esta artista parece compreender que a forma e a imagem são uma só coisa, inseparáveis como a alma do corpo.
Ela 'subverte a percepção', diz o despacho. Mas o que é a arte senão o estudo profundo da percepção? O olho é o nosso primeiro mestre, e enganá-lo ou guiá-lo é a mais alta das ciências. Ao apresentar uma imagem que é também objeto, uma ilusão que se pode tocar, ela força o observador a questionar o que é real. A sua obra parece ser um espelho que não reflete apenas o mundo, mas a própria natureza de como o vemos. Devo anotar em minhas folhas: investigar os sais que escurecem com o sol. Talvez aí resida o segredo desta 'fotografia'. A natureza, como sempre, guarda a resposta para a arte mais elevada.
Arte · 22 de out. de 2026
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