Chegou-me às mãos, por vias que não compreendo, um despacho de tempos vindouros. A mente se fatiga a decifrar os nomes: Coty, Kering. Parecem mais o som de engrenagens a ranger do que de famílias ou patronos. Mencionam os Gucci, nome que conheço de Florença, mas associado a uma tal ‘Beauty’, como se a beleza fosse um ofício apartado, uma mercadoria a ser licenciada e devolvida qual ferramenta emprestada. Dizem que uma entidade cede a outra o direito sobre esta ‘Beleza’. Observo aqui um princípio de hidráulica: um fluxo de poder, um rio de ouro, sendo desviado de seu curso por uma nova engenharia de canais. O que é esta ‘licença’? Uma permissão escrita, um selo? Ou uma força invisível, como o ar que sustenta a asa do pássaro em seu voo? Eles a movem com ‘estratégia’, como um general move seus exércitos, buscando o terreno mais vantajoso. Para mim, a arte e a técnica são um só corpo. A beleza não se transfere; ela emerge da proporção exata, da anatomia compreendida, do movimento da alma expresso no rosto — o moti dell'animo. Como se pode ‘internalizar’ a beleza, senão pelo estudo profundo da natureza? Dissecam eles o segredo da luz e da sombra para vendê-lo em frascos? Este mundo futuro parece operar por alavancas e contrapesos que não vejo. Falam em ‘gigantes’ e ‘conglomerados’, e imagino máquinas colossais, movidas a vapor ou a um poder desconhecido, que rearranjam o próprio comércio como eu rearranjo os músculos de um estudo anatômico para entender sua força. A notícia menciona outros movimentos, como correntes secundárias em um grande vórtice. Tudo está conectado, como os nervos ao cérebro. Resta-me a pergunta: se a beleza pode ser assim negociada, que alma resta nela? Talvez seja apenas um reflexo, um sfumato do verdadeiro espírito das coisas, que eu persigo com meu pincel e minha pena.
business · 14 de jul. de 2026
Ensaio sobre a notícia

