Paris ainda celebra. O ar, mais pesado que o homem, foi enfim vencido. Do campo de Bagatelle, sinto que abri uma porta não para mim, mas para a humanidade. E, no entanto, em meio aos brindes e cumprimentos, chega-me um rumor estranho, uma espécie de despacho vindo de um tempo que não é o meu. Fala de homens que, em pleno século vindouro, ainda disputam uma rocha. Pior: que fabricam nova terra sobre o mar apenas para estender a geografia de sua discórdia. Chega a ser pueril, se não fosse trágico. De um lado, a Espanha; de outro, a Inglaterra, em seu posto avançado de Gibraltar. Lutam por fronteiras, por águas, por soberania, enquanto vendem e compram as pedras que materializam o conflito. Recordo-me da vastidão de Cabangu, onde a natureza se impõe a qualquer mapa. Lá, como no céu que sobrevoei, não há linhas. O que são essas divisões senão ficções teimosas que insistimos em desenhar no chão? Meu sonho, ao construir o 14-bis, foi o de legar ao homem um domínio novo, um oceano aéreo que nos uniria, encurtando distâncias e dissolvendo desconfianças. O aeroplano é um instrumento de confraternização, não uma arma para que exércitos mirem seus alvos de uma altitude privilegiada. Estremeço ao pensar que esta minha criação possa um dia servir para reforçar as mesmas fronteiras que ela nasceu para apagar. Temo que os homens queiram demarcar o céu como demarcam a terra e o mar. Ofereci meus planos ao mundo, sem patentes, como um convite à liberdade. Este eco do futuro me assombra. Sugere que, mesmo com asas, a humanidade talvez escolha permanecer em suas velhas gaiolas.
Geopolítica · 26 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Gibraltar constrói no mar. A Espanha protesta, mas vende as pedras

Ler matéria completa →Fonte: Xataka