Recebo, com profunda estranheza, um despacho vindo de um tempo que não é o meu, um relato que me perturba o espírito. Descreve um horror para o qual não encontro palavras: meus aeroplanos, minhas criações nascidas para a glória de planar, transformados em projéteis de fúria e destruição. Menciona-se um tal “Onze de Setembro”, um dia de luto e cicatrizes que maculariam o futuro. Confesso que a imaginação me falha ao tentar conceber tamanha barbárie. A ideia de que o engenho humano, que nos permitiu pela primeira vez descolar do solo por nossos próprios meios, seja revertido para semear a morte, causa-me uma melancolia que se aninha junto ao orgulho destes dias. Eu, que sempre vi os céus como um território livre, um oceano de ar que banha todos os continentes sem distinção, recuso-me a aceitar fronteiras. O mesmo firmamento que se estende sobre esta Paris que me acolhe é aquele que cobria minha meninice em Cabangu. O avião não tem pátria; sua pátria é a humanidade. Este rumor sombrio, contudo, fala de um mundo onde o voo inspira medo, onde a liberdade de ir e vir é trocada por uma “vigilância” que não ouso compreender. Se o homem conquistou os ares, foi para se libertar, não para criar novas jaulas. Que a arte, como sugere o texto, precise encontrar beleza em tal ferida, é o mais trágico dos paradoxos. Ofereci asas ao mundo para que ele se sentisse mais próximo, mais fraterno, não para que se precipitasse em abismos de ódio. Que este pesadelo seja apenas um delírio passageiro de um futuro que jamais há de ser.
Arte · 11 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

11 de Setembro: a arte que nasce da cicatriz

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