Paris ainda celebra. Há poucas semanas, meu 14-bis provou que o homem pode de fato conquistar o ar. Olho para o céu e não vejo uma abóbada francesa ou brasileira, mas um oceano comum, um novo território para a fraternidade universal que sonhava desde menino, em Cabangu. Acredito que o voo pode nos unir, encurtar as distâncias que nos separam e nos tornam estranhos uns aos outros. Contudo, chega-me um rumor desconcertante, um despacho vindo de um futuro que mal ouso imaginar. A notícia fala de um tempo em que os mais velhos, após uma vida de trabalho, teriam seu sustento confiscado para saldar dívidas contraídas na juventude em busca de instrução. A minha razão recusa-se a compreender. Como pode o saber, a ferramenta que deve libertar a mente e alargar os horizontes, converter-se numa corrente de ferro, um fardo que um homem carrega até o fim de seus dias? Este temor, o da perversão de um ideal, não me é estranho. Por vezes, observo meu aeroplano e sou assaltado por uma melancolia premonitória. Eu o concebi para aproximar os povos, e não para que se tornasse uma arma de guerra, despejando a morte dos céus. Aquele despacho do porvir descreve uma distorção semelhante: o Estado, que deveria ser o protetor de seus cidadãos, agindo como um credor impiedoso contra os mais vulneráveis. Meu ideal é o de um mundo sem fronteiras, onde o ar nos conecta a todos. Aquele futuro sussurra a criação de novas barreiras, mais cruéis por serem invisíveis, erguidas pelo dinheiro dentro de uma mesma pátria. De que vale dominar os ares se, em terra, acorrentamos o futuro ao passado e a dignidade a um livro de contas?
Inovação Institucional · 17 de ago. de 2026
Ensaio sobre a notícia

