Ainda sinto o clamor de Paris em meus ouvidos. O Campo de Bagatelle, o voo do mais-pesado-que-o-ar, a certeza de que um novo domínio se abriu para a humanidade. Entreguei ao homem os céus, um território vasto e livre, sem as linhas arbitrárias que os reis traçam na terra. Um caminho de nuvens que une minha Cabangu natal a esta cidade que me adotou, sem passaportes, sem fronteiras. Meu sonho é que esta nova via sirva para nos aproximar, para nos compreendermos como irmãos sob a mesma abóbada celeste. Contudo, em meio ao júbilo, chegam-me aos ouvidos os ecos de um rumor estranho, um despacho de um futuro longínquo. Falam de prodígios que minha mente de engenheiro luta para conceber. Usam palavras como 'impressão 3D', 'fabricação aditiva'. Descrevem o ato de criar um objeto, um calçado, não com as mãos, com o suor e a matéria bruta, mas 'imprimindo-o' a partir do nada, camada por camada, como quem folheia um livro. Enquanto eu amarro bambu e seda, eles parecem evocar formas da própria luz. E para que fim? Para um artigo de 'luxo', de uma 'marca'. Confesso que a notícia me traz um misto de assombro e melancolia. A capacidade de materializar objetos com tal facilidade é uma maravilha que ultrapassa meus mais ousados projetos. No entanto, temo que o futuro não tenha compreendido o presente que lhe dei. Abri os céus para a união dos povos, não para o comércio de vaidades. Que este poder criador não nos distraia das verdadeiras distâncias que ainda precisamos vencer: as que residem em nossos corações, não em nossos pés.
Moda · 08 de out. de 2026
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