Paris ainda celebra o voo do 14-bis. O ar conserva o cheiro de óleo de rícino e a memória daquele instante em que o homem, enfim, se fez mais pesado que o ar e, mesmo assim, alçou-se por seus próprios meios. A sensação de deixar o chão de Bagatelle é uma glória que me acompanhará para sempre. Contudo, em meio às felicitações, recebi um despacho estranho, um rumor de um futuro longínquo, datado de 2026. Fala de um tal senhor Satya Nadella e de sua 'Microsoft', e de uma preocupação com algo que chamam de 'inteligência artificial', ou IA. A linguagem é hermética, mas a angústia é clara. Mencionam a necessidade de um 'freio de emergência', a presunção de que todos esses engenhos de pensamento já nascem 'comprometidos'. Não compreendo a natureza dessa invenção futura, mas reconheço o temor que a inspira. É a mesma sombra que por vezes me assalta ao ver o brilho nos olhos dos militares que examinam meu avião. Criei asas para a humanidade, para encurtar distâncias e irmanar os povos, para que o céu fosse um território livre, sem as fronteiras que tanto me afligiam na Europa, tão distintas dos horizontes abertos da minha Cabangu. Agora, este eco do porvir me diz que outros inventores, de outras máquinas, enfrentarão o mesmo dilema. O desejo de criar um mecanismo de segurança não para a falha técnica, mas para a falha moral. Um freio contra a perversão do propósito. Este senhor Nadella parece buscar o que eu mesmo anseio: uma forma de garantir que nossas criações sirvam ao progresso e à comunhão, e não à divisão e à ruína. O despacho me soa fantástico, mas sua melancolia é terrivelmente familiar. Parece que, mesmo em um século vindouro, a maior invenção do homem continuará sendo a sua capacidade de transformar sonhos em pesadelos.
tech · 11 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Satya Nadella, da Microsoft, defende um 'freio de emergência' para IA

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