Chegou-me às mãos um despacho curioso, um rumor de um futuro que mal ouso conceber. Descreve o trabalho de um 'psicólogo' de um lugar chamado 'Stanford', que estuda um mal-estar a que dá o nome de 'churn': uma tensão que surgiria da simples convivência entre pessoas de origens distintas, minando a confiança mútua mesmo na ausência de hostilidade declarada. Confesso que a ideia me soa estranha. Aqui em Paris, meu círculo é feito de homens de toda parte, cientistas, artistas e sonhadores. Nossas diferenças de berço se apagam diante da ambição comum de conquistar os ares. No hangar, a confiança não é presumida; ela é construída a cada dia, forjada em madeira, seda e na coragem de partilhar o mesmo risco. Não há tempo para essa 'tensão' quando o objetivo é maior que nós mesmos. Esse mal-estar parece ser uma doença da terra, das fronteiras que os homens insistem em traçar no mapa e na alma. Quando me elevo nos céus de Bagatelle, não vejo essas divisões. O mundo se revela como um todo contínuo. O céu que cobre minha distante Cabangu é o mesmo que me acolhe aqui, e minha esperança sempre foi que o avião servisse justamente para isso: para que os homens pudessem cruzar essas linhas imaginárias e perceberem-se como vizinhos de um mesmo planeta. No entanto, este despacho planta em mim uma semente de melancolia. Se essa desconfiança é uma condição tão fundamental da natureza humana, o que farão com a minha invenção? O avião, que sonhei como um mensageiro da união e do progresso, poderia ser convertido em uma arma? Temo que, em vez de encurtar distâncias para promover a amizade, ele seja usado para projetar a hostilidade de uma nação contra outra. O sonho de voar livremente corre o risco de se tornar o pesadelo de ver o céu, nosso último território comum, transformado em mais um campo de batalha para as desconfianças da terra.
Sociedade · 21 de jul. de 2026
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